edição n° 25
abr/mai/jun 2009 - ano VII
Modernidade e cegueira
A coroidite multifocal é um processo inflamatório intraocular que se apresenta com manifestações clínicas variadas, podendo comprometer a visão e até mesmo a integridade do globo ocular. A doença afeta tipicamente indivíduos jovens e leva à queda dramática em sua qualidade de vida e capacidade produtiva. O quadro clínico característico envolve inflamação intraocular difusa (chamada de uveíte, ou pan-uveíte), o que aponta envolvimento do sistema imunológico no desenvolvimento da doença. Disfunções imunológicas graves, acometendo o olho ou outros órgãos e associadas ou não a agentes externos identificáveis, muitas vezes não têm causa conhecida ou tratamento disponível. A coroidite multifocal causa perda visual em mais de 70% dos pacientes.
As pessoas afetadas têm uma característica em comum: são adultos com menos de 50 anos de idade e no auge da capacidade produtiva, previamente saudáveis e que geralmente possuem bom nível social e econômico. Além de dados epidemiológicos objetivos, os pacientes com coroidite multifoca têm em comum um aspecto surpreendente: associação entre o aparecimento da doença e estresse emocional. Na população brasileira de baixo poder aquisitivo, as principais causas de cegueira continuam sendo doenças preveníveis ou tratáveis, como catarata, glaucoma e retinopatia diabética.
Nos países economicamente desenvolvidos, uma outra condição conhecida como degeneração macular relacionada à idade (ou DMRI) é hoje a principal causa de cegueira. Trata-se de condição multifatorial, cuja base genética tem sido amplamente caracterizada por pesquisadores de todo o mundo. O entendimento das bases genéticas e dos fatores de risco levaram a avanços decisivos na prevenção e tratamento da DMRI, com impacto dramático na qualidade de vida dos pacientes afetados. A coroidite multifocal, por sua vez, apresenta manifestações clínicas em muitos aspectos semelhantes à DMRI, mas pouco se sabe sobre os mecanismos patológicos desta condição, que já foi chamada de “degeneração macular do jovem”.
Considerando as semelhanças clínicas entre as duas entidades, e motivados pelo impacto significativo da coroidite multifoca sobre o indivíduo e a sociedade, um grupo de pesquisadores da Universidade de Columbia (Nova Iorque, EUA) desenvolveu um estudo multidisciplinar que permitiu a identificação de bases genéticas da doença. O grupo foi coordenado pela médica brasileira especialista em retina, Dra. Daniela Ferrara.
A pesquisa investigou mutações genéticas envolvidas na DMRI em pacientes com coroidite multifocal. O resultado mostrou surpreendente correlação entre a coroidite e mutações em um gene envolvido na resposta imunológica, denominado gene do Fator H do Complemento (Complement Factor H gene). O Sistema do Complemento é formado por extensa gama de proteínas que modulam a resposta inflamatória do organismo. As reações imunológicas são fundamentais na defesa contra agentes infecciosos. Baixa imunológica grave pode levar até mesmo à morte, como eventualmente ocorre em pacientes portadores do vírus HIV que desenvolvem a Síndrome da Imuno-Deficiência Adquirida (SIDA/AIDS). Entretanto, resposta exacerbada do sistema imunológico pode igualmente comprometer a saúde do indivíduo, em condições clínicas que variam da asma brônquica às doenças auto-imunes como lúpus, artrite reumatóide ou tiroidites.
O estudo conduzido pela Dra. Daniela revelou que variadas mutações no Fator H do Complemento estão fortemente associadas à coroidite multifocal. Sabia-se que a disfunção imunológica estava envolvida na grave inflamação intra-ocular que ocorre na coroidite. No entanto, não havia um alvo genético capaz de elucidar os mecanismos da doença. Portanto, até então o tratamento disponível não é específico, baseado na imunossupressão com corticóides ou outros medicamentos imuno-moduladores. Manifestações graves da coroidite requerem intervenção terapêutica efetiva, mas o próprio tratamento pode ter graves efeitos colaterais. Considerando-se o perfil e faixaetária dos indivíduos afetados pela coroidite multifocal, os tratamentos imunossupressores atualmente disponíveis podem ocasionalmente ser tão incapacitantes quanto a doença, embora absolutamente necessários.
O estudo foi publicado no Archives Of Ophtalmology (nov/2008), uma das principais publicações em oftalmologia no mundo, e vem sendo divulgado através de palestras e seminários em diversos países. Ele esclareceu um aspecto fundamental deste e de outros tipos de degeneração macular. Com isso, novas perspectivas se anunciam no diagnóstico e tratamento da coroidite multifocal. O perfil genético que foi identificado pode, por exemplo, ser um atraente alvo para terapia genética, no futuro. Veja artigo na íntegra.
Para a coordenadora dos estudos, Dra. Daniela Ferrara “esta pesquisa contribui com uma evidência sobre as bases genéticas da coroidite multifocal e o resultado indica um potencial alvo diagnóstico e terapêutico para a doença. Do ponto de vista de estratégia clinica, as mutações no Complement Factor H mostraram forte associação com a doença, o que significa que pacientes com as mutações identificadas têm maior risco de desenvolvê-la. Este dado genético pode ser associado aos dados semiológicos (achados clínicos, epidemiológicos, ambientais) na investigação diagnóstica. Já do ponto de vista terapêutico, esta contribuição é muito importante, mas um longo processo de investigação ainda é necessário. Conforme mencionei, um potencial alvo terapêutico foi definido, mas, para que efetivamente possa se propor um tratamento com base nesta descoberta, é necessário mais pesquisa para definir a efetiva contribuição do Complement Factor H nos mecanismos patológicos envolvidos e o efeito destas mutações sobre o mesmo Fator H.”